A noite em que ficámos com o coração nas mãos…

A noite em que ficámos com o coração nas mãos…
A noite em que ficámos com o coração nas mãos...

São 7h30 e acabámos de chegar a casa…
O quarto está o caos, como o deixámos. A mesa de cabeceira tombada ampara o candeeiro partido ao fundo da cama. No chão jaz o resto da espuma que deixou no caminho.
Estamos atordoados do sono, do cansaço, do medo, mas mais do futuro. Não conseguimos bem explicar o que aconteceu nas duas últimas horas. Só sabemos que acordámos com a hipótese de ficar com a Concha nos braços…

Eram 5h15 da manhã quando acordámos com o barulho das unhas da Concha a raspar no chão, numa corrida supersónica com destino ao nosso quarto.
Baaaaaaaaaaaaammmmmmmm!!!! Embateu a seco na mesa de cabeceira para a seguir começar a estrebuchar no chão junto à cama.  Como estava no lado do João foi ele que acendeu a luz para ralhar com ela e para parar com aquela “brincadeira” madrugadora.

As luzes acenderam-se, mas a reacção não foi a esperada…
“Concha! Concha! Concha”, começou a gritar. Eu assustei-me com o tom da voz dele e saltei da cama, como se tivesse uma mola acoplada às costas. Acerquei-me deles e vi. Vi a minha Concha, a nossa filha de quatro patas, deitada no chão a ter uma convulsão, um ataque de qualquer espécie que não sabia nomear (ou não queria), que fazia com que ela tremesse toda, se espumasse e não conseguisse controlar a respiração. O João em pânico tentava acalmar o corpo tenso e hirto da cadela, a tentar fazer com que aquilo tudo não passasse de um pesadelo do qual fomos acordados.

Mas não, era real. Bem real. Real demais. Com sons, movimentos, cheiros que pontuaram a realidade e não nos deixam esquecer, quanto mais adormecer. Ainda não acredito que há duas horas atrás pensei que ficávamos com ela nos braços… é muito forte…

Eu corri para o outro quarto. Tirei as calças do armário, uma sweat para ele e gritei “vamos já para as urgências”. Entrei no nosso quarto com o plano, gritei-lhe para se vestir e fiquei no chão com ela a acalmar. Neste momento a Concha conseguiu recuperar a respiração, acalmou-se e sentou-se sem saber muito bem o que lhe tinha acontecido.

“Vamos?”, perguntou ele já pronto.
Disse-lhe para descer que só precisava de vestir qualquer coisa e pegar nos documentos dela.
Neste processo ainda peguei numa toalha (não sei porque achava que precisava), vesti-me como se estivesse a meio de uma peça de teatro e ainda apanhei um dejecto do chão que a pobrezinha não controlou no caminho percorrido em pânico.

Dentro carro parecíamos zombies. Ela mais calma, nós brancos, lívidos, aterrorizados. Não trocámos uma única palavra. Demos entrada nas urgências do Hospital Veterinário do Restelo. Ela já se parecia mais consigo. Cumprimentou quem nos recebeu. Cheirou toda a recepção e parecia normal. Fizemos a consulta de diagnóstico e o resultado aponta para aquilo que não queríamos verbalizar no carro…

Um ataque epiléptico que denuncia uma possível cadela com epilepsia. Acho que ainda não tinha conseguido verbalizar isto, so agora. Ainda não tivemos tempo para reagir, só agir. Fizeram-lhe exames hematológicos para despiste de outras patologias, mas nada. Tudo normal, tudo dentro dos valores correctos. Uma cadela saudável a todos os níveis. Então, porquê? Porque é que isto foi acontecer à nossa maravilhosa cadela, a nossa companheira de brincadeiras, de passeios e de vida? Porquê? Como vai ser o seu futuro daqui para a frente? Como é que eu vou reagir perante outro episódio destes? Ela vai ter isto para a vida? Com que frequência? Como posso minimizar as possibilidades de ocorrência? Ela vai ter sequelas? Como a posso proteger?

Claro que estas perguntas discorreram em rajada pela minha cabeça atordoada e a médica respondeu sempre com tranquilidade, explicando que em espécimes muito puros é uma patologia muito recorrente. Como que a justificar o onus de termos uma cadela tão especial.
O problema é que eu já sabia que ela era especial, única, só não precisava era de ser assim tanto.

Viemos embora sem ela, o que custou horrores. Ficou lá em observação para termos a certeza de que não tem mais nenhum episódio destes nas próximas 24 horas. Tadinha… Só de me lembrar da carinha dela quando nos despedimos e nos viu a ir embora é de cortar a respiração. Perdoem-me a comparação, nós não temos filhos, mas nem consigo imaginar como uma mãe ou um pai se devem sentir ao deixar um filho no hospital, ao cuidado de outros, privado do amor incondicional que lhes dedicamos quando os sentimos mais frágeis ou doentes. Não consigo imaginar. Deve ser devastador.

E agora cá estamos. Ainda no escuro aqui de casa. Não conseguimos falar mais sobre o assunto. Acho que no fundo ainda não acreditamos no que se passou. Mas é verdade. É real. Não me sai da cabeça o barulho em forma de pânico com que ela entrou no nosso quarto, como que a suplicar ajuda. Foi muito forte…
Quanto ao futuro não sei… Não sei… Só sei que gosto demais desta minha cadela, deste nosso bem mais precioso e só estou a contar os minutos para a ir buscar ao hospital.

Nunca esperei gostar assim tanto de um cão. Nunca. E agora o meu coração está lá com ela, só com ela, para que não se sinta sozinha, abandonada. Estou a pedir muito para que não tenha mais nenhum episódio, para que fique bem, para que volte a ser a cadela mais espectacular do mundo. Porque o é!

Só quero que voltes a ser assim, feliz, contente, cheia de energia, a mais sociável do mundo, que adora a praia e o mar. Estou quase a ir buscar-te. Estou quase…

A noite em que ficámos com o coração nas mãos...

A noite em que ficámos com o coração nas mãos...

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Marta Neves
Marta Neves

Encontrei no universo feminino a minha missão: partilhar, aprender e ajudar. Nasceu o Marta Neves, para me sentir mais eu, mais em sintonia com a minha essência. Despida de formalismos ou preconceitos, serei EU. A mulher. Apaixonada de coração pela vida e pelos outros.

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7 Comments

  1. Agosto, 2015 / 9:15 am

    Força! Muita Força e a Concha vai ficar bem! Um beijinho!

    • Agosto, 2015 / 12:22 pm

      OBRIGADA! OBRIGADA! OBRIGADA!!! Obrigada pela genuina preocupação. É de coração que agradeço!!! Vou dar noticias e esperar que tudo corra bem. Pensamentos positivos e boas energias!! Beijinhos gigantes. Resto de dia feliz.

  2. Agosto, 2015 / 9:53 am

    Força…ela vai ficar bem e ser a Concha de sempre…só quem os não tem não compreende o que está a sentir. Eles são tudo para nós e vê-los numa situação dessas é uma dor sem medida. Tudo vai voltar à normalidade…o meu Byron também, de repente, perdeu a força nas patinhas traseiras e caiu quando estávamos a passear:ficou muito addustado e sem se levantar…pensei o pior- um ataque de coração…Felizmente, continua a ser seguido, e tem um coração. Forte como um valente. parece que é uma nova patologia que aparece nos lab retriever…um gene em mutação, também por ser puro….Entretanto, não o deixo csnsar em demasia, nem apanhar muito calor…e não tem tiido mais episódios….e faz uma vida normal, sem exagerar nas corridas e brincadeiras… Vamos torcer pela Concha e essa linda menina vai voltar a ser alegra e brincalhona❤ Dê notícias sff. Beijinho .

    • Agosto, 2015 / 12:25 pm

      OBRIGAGA! OBRIGADA! OBRIGADA de coração pela partilha e genuína preocupação com a nossa Conchinha. UAUUUU! Que forte o Byron!! Realmente há situações que nos colocam à prova. Foi terrrivel, mas tenho que acreditar que ela vai melhorar. Só quem tem esta família de quatro patas é que sabe e sente como nós. Vou dando noticias e contando como ela está a melhorar! Se Deus quiser, tudo há-de correr pelo melhor! É muito bom saber-vos desse lado a partilhar estes momentos! Beijinhos gigantes e resto de dia feliz 🙂

  3. Agosto, 2015 / 11:58 am

    Tenho um labrador e sei bem o que isso custa. Há um ano fui com o meu para as urgências do hospital com uma dilatação do estômago. Custou-me horrores! Ainda por cima ele tina comido uns ossos, porque a minha mãe só lhe dava porcarias às vezes, teve de ficar lá 3 dias. Foram os piores 3 dias das nossas vidas. Agora só lhe damos comida duas vezes ao dia, 500gr por dia, não come e nem bebe antes e logo depois de fazer qualquer brincadeira ou exercício para evitar ter uma nova dilatação e é assim que o vamos mantendo saudável. Mas acredito que te tenha custado horrores, não sabemos o quanto amamos esses seres puros até os vermos à rasca, tristinhos a olhar para nós. Vai dando notícias sobre a pequena e muita força 🙂

    • Agosto, 2015 / 12:29 pm

      OBRIGADA! OBRIGADA! OBRIGADA de coração pela partilha e genuína preocupação com a nossa Conchinha. A sério?!!?!? Coitadinho!!! Mas ainda bem que ele já está melhor. Às vezes para que eles estejam bem só temos que adaptar algumas coisas na nossa rotina. Espero que agora já consigamos estar mais atentos aos sinais da Concha e tentar prever mais algum ataque que ela possa ter. Mas, como dizes, custa horrores! É o nosso coração ali com eles, num amor incondicional! Um beijinho muitooo grande para TI e para o teu patudo! Tudo a correr bem para vocês!!! Resto de dia feliz!!! Assim que tiver noticias, partilho 🙂

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