Cocó contra a ditadura da felicidade

Cocó contra a ditadura da felicidade
Cocó contra a ditadura da felicidade
Fonte: Pinterest

Há blogs que eu sigo religiosamente e este é um deles.
A Sónia não me conhece, mas eu sinto que a conheço há imenso tempo e à sua maravilhosa família.
O que já me ri, gargalhei, comovi e chorei à conta das suas sábias, mas muito certeiras palavras.
Amo a sua forma descomplicada de escrever sobre a mais pura das realidades. E para que não restassem dúvidas o próprio do nome do Blog faz jus à sua praticidade sem filtros, nem pruridos, em row mode, como o próprio dejecto de que é nome.

E hoje este era o post que precisava.

Ando a falar nisto há séculos e é mesmo daquelas coisas que gosto de ter presente sempre que me encanto com a “magia” de mais uma forma de rede social. Hoje vive-se a “Democracia da Felicidade” e em aparente inocência é um animal que se apodera de nós e nos invade sem darmos conta.
E quando consciencializamos queremos viver a vida dos outros, queremos vestir o que os outros exibem, queremos sentir a mesma aparente felicidade que exaltam. Mas essa não é a vida. E a realidade é real. Essa e só essa. Mais nenhuma que não a nossa, cheia de contrariedades, em igual medida de tristeza e gargalhadas. A felicidade deve ser viva em pleno pelo seu contraste e não banalizada por uma fotografia com filtros.

Sem tirar uma vírgula, Sónia Morais Santos no seu melhor e no meu coração. Ámen, Sister!

“Não sei que raio de moda é esta mas hoje parecemos escravos de uma ditadura de felicidade. Postamos selfies onde estamos sempre felizes, mostramos a vida sorridente, revelamos muito do que nos enche de alegrias. Até aqui, tudo bem. Na verdade, nos nossos álbuns de fotografias pessoais também não colocamos as fotos que nos exibem as misérias. Não conheço um único álbum, da era pré-digital ou moderna, em que se vejam os protagonistas em lágrimas, num daqueles dias cinzentos a valer. Queremos preservar os instantes realmente fantásticos, queremos recordar mais tarde tudo o que vale a pena recordar. É compreensível. O que já não é assim tão compreensível é o excesso. Vejamos: ninguém tem uma vida 100% feliz. Há dias de merda (pardon my french). Há dias em que temos vontade de sair de bater com a porta, sair para não mais voltar, mudar de vida, esquecer esta. Há dias em que questionamos tudo e choramos a alma inteira. Mas raramente nos atrevemos a partilhar estes estados de alma. Por um lado porque – lá está – queremos apenas deixar escrito aquilo que vale a pena. Por outro, porque sabemos que, na ditadura da felicidade em que vivemos, o mais certo é sermos trucidados, vilipendiados, apedrejados até nos termos esquecido da dor original. Porquê? Porque não temos o direito de nos sentirmos tristes, em baixo, com a neura. Logo virá quem grite que temos uma vida tão boa que falar em sofrimento é um escândalo, praticamente um crime, venha a polícia para nos levar! Logo virá quem aponte o dedo e nos mande sorrir. Logo virá quem fale de vidas escabrosamente infelizes, de dramas que nem supomos, para nos remeter ao ridículo. Deixámos de poder ficar num canto, a chorar só porque sim. Porque tivemos um dia de merda e só queremos amaldiçoá-lo e, exagerando um bocado, aproveitar para amaldiçoar a vida toda. Não podemos. A vida fervilha e, de nós, espera-se o melhor. Bom aspecto, elegância e, sobretudo, a partilha de uma vida que valha a pena ser vivida.
Pois por aqui não se vive uma vida de cenário. Há dias do caraças – que os há – mas também há aqueles que nem vos passa pela cabeça. Ou se calhar passa, se também tiverem a sorte de viverem uma existência real. Aborrece-me um bocado esta urgência em se estar feliz e contente, sorrindo e acenando em permanência. Como se os períodos negros não fizessem também parte da nossa história, e não fossem também eles importantes para o nosso crescimento, para a nossa formação e, até, para a valorização dos tais momentos felizes que gostamos de registar em fotos e em palavras. Os dias cinzentos fazem parte de nós, tal como os outros. Se nos esquecemos disso, caímos no grave erro de banalizar a felicidade. E ela é preciosa demais para ser banalizada”. 
in Cocó na Fralda

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Marta Neves
Marta Neves

Encontrei no universo feminino a minha missão: partilhar, aprender e ajudar. Nasceu o Marta Neves, para me sentir mais eu, mais em sintonia com a minha essência. Despida de formalismos ou preconceitos, serei EU. A mulher. Apaixonada de coração pela vida e pelos outros.

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