Crónica “New in Town”: Vogue VS Bloggers… A polémica!

Crónica “New in Town”: Vogue VS Bloggers… A polémica!
Crónica "New in Town": Vogue VS Bloggers... A polémica!

(Soltem a música)

Es-ta-laaaaaa bomba e o foguete vai no ar. Arrebenta, fica todo queimado. Não há ninguém que baile mais bem, que a Vogue e as meninas dos Blogues! 

É caso para dizer: rebentou a bomba geral!!!

Há muito que se falava, que se ouvia uns zuns-zuns, uns mal-estares entre as publicações de moda e as bloggers. O boato foi-se abafando. Os sorridos continuaram a aparecer e os flashes continuaram a disparar. Porém, durante a Paris Fashion Week, o verniz estalou de vez.

Fashion-Bafão ao mais alto nível! 
Não sabem do que estou a falar?! Como assim!?!? Vocês são deste mundo? Não viram o feed do Twitter a enlouquecer, o Snapchat em overdose de vídeos, e as respostas, em jeito de estucada final, no Instagram?! Helloooooo?!?! Está alguém desse lado?!?

Para os mais distraídos, eu contextualizo:

Reza a lenda que durante a Paris Fashion Week (não reza, aconteceu mesmo) Sally Singer, Directora Digital da Vogue publicou um comentário no Twitter com a seguinte frase: “É um momento esquizofrénico este que vivemos hoje, e isso não pode ser bom. (NOTA para os blogueiros que mudam de outfits, a cada hora, dos pés-à-cabeça, com roupa paga. PAREM POR FAVOR. Encontrem outro negócio, porque vocês estão a anunciar a MORTE DO ESTILO)”.

A este twitt seguiram-se outros, dos colegas de profissão:

Sarah Mower, Chefe da Critica da Vogue: “Tao isso, Sally. A pequena parte profissional da vida de uma blogger, a agressão que fazem quando passam pelos fotógrafos na rua. É horrível, mas acima de tudo, patético para essas meninas, que arriscam verdadeiros acidentes de trânsito só na esperança de serem fotografadas”;

Nicole Phelps, Director da Vogue Runway: “O que me leva de volta ao que Sally e Sarah disseram sobre a ‘bagunça Street Style’. Não é apenas triste para as mulheres que aparecem em roupas emprestadas, é também angustiante ver tantas marcas participar”;

Alessandra Codinha, Editora de Noticias da Vogue.Com: “Será que me é permitido admitir que fiz um pequeno “fist pump“, quando a Sally abordou o “Paradoxo do Blogger”? Não há muito que possa acrescentar mais à discussão, para além de achar que ainda é engraçado que lhes chamem “Bloggers”, uma vez que são muito poucas aquelas que ainda o sabem fazer. Em vez de uma celebração de um qualquer estilo real, parece ser tudo transformado. É ridículo quando se levantam e tiram as fotografias, só para alimentarem as suas redes sociais … é tudo muito embaraçoso – ainda mais considerando tudo o que está a acontecer no mundo. Aliás, será que já se registaram para votar? Não se esqueçam do debate na segunda-feira! (fazendo uma alusão ao primeiro debate presidencial americano onde estariam pela primeira vez, frente-a-frente, Hillary e Trump). 

Claro que depois destas bombas digitais, explodiram as retaliações do outro lado da barricada. E a discussão perdeu-se algures numa latrina de muito mau gosto. Claro que as bloggers começaram as justificar todos os seus actos e acções e a Vogue calou-se no discurso. 

Crónica "New in Town": Vogue VS Bloggers... A polémica!

Não podemos negar que há (e vai continuar a haver) alguma teatralidade e pose à porta dos desfiles. Vai acontecer sempre. Mas esse palco não é só dos bloggers. Muitos editores, jornalistas, convidados, celebridades, alunos de design e moda pavoneiam-se por entre os flashes. Não nos podemos esquecer que a expressão “dress for press” – vestir para a imprensa – foi protagonizada por editoras como Anna Dello Russo e Giovanna Battaglia. A maioria das agências de modelos aconselha os seus agenciados a irem vestidos para serem fotografados pelos fotógrafos de street style, de forma a darem um boost aos seus perfis digitais, e que a maior parte das publicações de moda e seus editores vive diariamente deste “empréstimo” de roupas dos designers, quer para produções de moda, quer para eventos, ou aparições em Fashion Weeks

A única diferença que há entre o trabalho de uma blogger e de uma edição de moda, em formato “hard“, tradicional, tem que ver, única e exclusivamente, com a credibilidade já estabelecida pela marca que as revistas representam. Infelizmente, para muitas destas raparigas que criaram um blogue, ainda estão no processo de estabelecimento da seu própria marca pessoal, que é um processo muito mais atribulado e demorado. Mas negar-lhes o mérito e os atributos é só mesmo ser-se conservador e cínico, porque as evidências e os números estão ai para sambar na cara dos mais cépticos. 

Por alguma razão os chamam de “digital influencers”, uma palavra-duplex-composta-de-estilo que representa aquilo que fazem melhor (e que alicia as marcas) – INFLUENCIAR. 

Daí não perceber este histerismo, esta indignação, esta pala-de-burro à frente dos’jolhos, como se não quisessem lidar com a realidade que está, claramente, a mudar. Tapar a pala e achar que nada se passa é meio caminho andado para o fracasso. Esta é somente a minha pobre opinião de comum mortal, que nem sequer vai a Semanas da Moda. Acho que a quantidade gigantesca de artigos, estudos de comunicação e números indicam (indiscutivelmente) que estes “influenciadores” são realmente os gatekeepers fashionistas da era moderna. 

E não é suposto elas irem vestidas com roupa da marca? Claro que é! Se eu fosse um designer famoso eu também ia querer que a Chiara fosse vestidinha dos pés à cabeça com a minha marca. Longe vão os tempos em que as grandes publicações de moda eram a nossa única referência de estilo. Diria que para 99% desses leitores essas páginas de revista serviam apenas de inspiração, porque na sua maioria ninguém tinha (tem) dinheiro para comprar sequer o verniz da modelo daquela produção fotográfica. Víamos as tendências, mas PONTO FINAL. 

O que as Bloggers, as Insta Girls, as Snapchaters, as It Girls vieram trazer ao business foi – usabilidade. É possível usar aquelas roupas, ou parecidas, no dia a dia, na nossa vida comum. Misturaram peças de marca com fast fashion, provando que a moda está mais democrática e acessível que nunca. Aliás, foi a passagem da moda para a rua – a hegemonia do street fashion – que fez com que muitos designers quisessem apresentar as suas colecções para o próximo ano no asfalto. A moda invadiu as ruas, as cidades e as pessoas “normais”.  Desculpem, mas não consigo ver mal nenhum no fenómeno. 

E não é suposto a ida a um desfile ser um momento de espectáculo, ousadia e showbizz? Penso que sim! Eu quero ir a um desfile e quero sentir esse pulsar de moda a sair-me das córneas. Quero ficar deslumbrada, maravilhada, chocada e entretida com a leitura que muitos fashionistas fazem das novas tendências. É para ser over-the-top, minha gente. É ou não é?! 

Não há volta a dar. Basta verem o número de seguidores no Instagram das top bloggers mundiais para nos sentirmos um pequeno um cocó-social. É estratosférico, é intergaláctico, é de outro universo. 
Por isso é que me parece uma falsa questão questionar, como fizeram estas vozes mais tradicionais, o valor destas raparigas. Why? É a única pergunta. 

Podemos questionar o verdadeiro intuito das suas presenças nos desfiles? Podemos. Mas assim teríamos que questionar o de todas as pessoas que neles estão envolvidas, porque sinto que não seria justo para nenhuma das partes. Se há bloggers que só lá vão porque querem aparecer e ganhar roupas grátis, quanto se pavoneiam em frente às milhentas câmaras para conseguirem uma fotografia de destaque num site da moda? Claro que sim. Mas serão a maioria?! Creio que não! Até porque hoje as marcas fazem esse follow up, fazem esse levantamento de retorno e presença online. Não é só ser-se convidado para ir a um desfile, há monitorização que avalia se esse influencer deu ou não o retorno desejado. Ninguém aqui brinca em serviço. 

E digo isto baseado, única e exclusivamente, numa pequena evidência empírica. Convido-vos a visitar os principais blogs das top que estão nestas semanas de moda e perceber que aquilo, apesar de nos poder parecer só fun and games, deve dar uma trabalheira descomunal. “Ah, e tal com equipas gigantescas também eu”. Sim, talvez, mas nem todas têm essas equipas e TODAS estão lá no batente TODOS os dias, com desfiles a começar às 10 da manhã e só a acabar o dia às 2h da manhã, non stop, com mudanças de roupa, maquilhagem, cabelos, aparições, entrevistas, fotografias, meet and greats, takeovers, e muito, muito mais. E tens que estar lá com o teu A-Game, com sorriso na cara, maquilhagem perfeita, contorno on fleak e sem olheiras. 

Pode parecer fácil, mas acredito que não seja. É fácil dizer que é fácil, porque o alvo é bastante vulnerável, o tema pode-nos parecer fútil, e as protagonistas ocas, porém, se pensarmos bem, estas afirmações não passam de julgamentos e estereótipos. Acredito e vejo (o bom de algumas já estarem no Youtube é que mostram os bastidores da cobertura das Fashion Weeks) que aquilo não é para quem quer, é para quem aguenta. É duro. Não é para todas. E é por isso que se tem que dar o valor. O valor que merecem pelo seu trabalho, porque na sua maioria são working girls, que construíram verdadeiros impérios, lançaram produtos de beleza, escreveram livros, protagonizaram campanhas mundiais, com menos de trinta anos. Acho que merecem aplausos e não críticas. 

Crónica "New in Town": Vogue VS Bloggers... A polémica!

E não deixa de ser interessante, irónico até, que a fotografia mais “gostada” e “comentada” no Instagram da Vogue.com seja uma com bloggers, em street fashion, numa fashion week… 

Se a minha avó soubesse ler este artigo diria logo: “Filha, não cuspas no prato onde vais comer”. Esta, sim, é sabedoria tradicional.
Just saying…

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Marta Neves
Marta Neves

Encontrei no universo feminino a minha missão: partilhar, aprender e ajudar. Nasceu o Marta Neves, para me sentir mais eu, mais em sintonia com a minha essência. Despida de formalismos ou preconceitos, serei EU. A mulher. Apaixonada de coração pela vida e pelos outros.

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4 Comments

  1. Outubro, 2016 / 6:29 pm

    Muito interessante esta polémica 🙂
    Ser blogger é ou não profissão? Na minha óptica, sim. E como em todas as profissões haverá os excelentes, os bons, os assim-assim, os maus e os péssimos. Assim como haverá excelentes e péssimos jornalistas, editores e etc. O que parece é que começa a haver uma luta de fashion-classes :p (em que ponto da hierarquia das fashion-classes estarão os bloggers? ).

    • Outubro, 2016 / 5:13 pm

      Na mouche, Sofia!!! Concordo em pleno com a tua observação. Acho, sinceramente, que aqui o que está implícito é mesmo isso – uma nova hierarquia profissional. Face a uma nova classe emergente, as mais tradicionais vêem-se forçadas a repensar o seu espaço e pertinência no mercado. O que pode (e deve causar) uma reflexão, mas também deve potenciar a insegurança e o medo, perante a ascensão de novos modelos de "negócio". Mas é mesmo isso! É para pensarmos e reflectirmos sobre este futuro em constante alteração. nada pode ser dado como adquirido e temos que saber respeitar as novas formas criativas do meio. Amei o teu contributo! Obrigada por estares aí desse lado!! ROCK ON!!!!!!!!!

  2. Outubro, 2016 / 3:11 pm

    Não podia estar mais de acordo com o que aqui li (estava mesmo ao lado desta polémica, as 11h diárias na fábrica estas últimas semanas deixam-me ao lado de tudo!)
    Está tão certa! Sim, ser blogger dá uma trabalheira descomunal, eu costumo dizer que tenho dois trabalhos, e sim, isto é mesmo duro! E sim, se essas bloggers estão lá é porque trabalharam muito mas muito mais que eu e eu tenho bem noção disso, e sim, mérito, têm muito mérito e é feio da parte da Vogue ter este tipo de estigma!
    Está bem que muitas bloggers e youtubers não percebem patavina do assunto mas essas o "mercado" acaba por as afastar naturalmente! Também há fracos profissionais em todo o lado não é verdade?!
    Mas ok, procurar bloggers para ter nas suas capas e publicações e depois vir dizer uma coisa destas, hummm, não bate a bota com a perdigota. Feio, muito feio…

    >> http://joandcompanystyle.blogspot.pt/ <<

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